Chains

Desci as escadas animado. Não havia nenhuma razão especial para isso. Era segunda-feira, dia no qual ninguém acorda disposto. E chovia, chovia como se alguém lá em cima estivesse com pena da secura que somente o clima de Brasília pode nos proporcionar. Mas estava animado. Desci as escadas e virei à esquerda, procurava a última mesa do canto esquerdo, acho que por superstição ou por simplesmente me sentir bem. Quando utilizava essa mesa, minha concentração ficava melhor, meus textos tinham sentido, os cálculos eram exatos, tinha confiança para flertar com qualquer menina que estivesse ao lado.

Com o passar do tempo, passei a precisar dessa mesa. Pensava nela a todo instante e esperava ansiosamente pelo fim das aulas para poder estudar no meu canto. Dizem que lar é onde nos sentimos bem, acho que encontrei o meu.

A Biblioteca estava vazia, já que a chuva impedia os menos destemidos de aqui chegarem. Sorte a minha que teria minha mesa desocupada. Abri meus cadernos e nenhum resquício de madeira restou sob o amontoado de papel. Estava feliz e nada podia atrapalhar.

Depois de algum tempo, chegou a hora do almoço e teria que sair de lá. Pensei na possibilidade de não comer e continuar desfrutando do que a interação com aquele objeto provocava em mim. O prazer era tanto, a tentação maior ainda, mas a fome me impelia a deixar para mais tarde essa sensação.

Comecei a pensar em maneiras para não perder a posse dela quando retornasse. Nenhuma outra poderia me completar. Ao olhar ao meu redor, descobri a solução. Deixaria alguns livros sobre a mesa para guardar meu lugar. Era perfeito. Escolhi os mais grossos de Cálculo 3, não é possível que alguém tenha ousadia e coragem suficientes para roubar o lugar de alguém que faça Cálculo 3. Levantei confiante e com a esperança de ao voltar encontrá-la me esperando, como se nunca tivéssemos nos separado. Atravessei correndo o minhocão para chegar ao restaurante universitário. Como já estava perto da uma hora da tarde, não havia fila. Nunca almocei tão depressa.

O Sol estava quente e a moleza pós-almoço já tomava conta do meu corpo, mas era preciso chegar o mais rápido possível, antes que algum espertinho me privasse dos melhores momentos dos meus dias. Desci as escadas correndo e quando viro à esquerda me deparo com um grupo de garotos usufruindo dos livros de Cálculo 3 que havia deixado marcando lugar. Não é possível. Quais as chances de três garotos irem à biblioteca no horário de almoço, debaixo da chuva que caía, justamente para estudar algo relacionado a Cálculo 3? Não sabia o que fazer, não conseguiria passar uma tarde inteira sem o contato com a minha mesa. Mas estava com sorte e não demorou muito para eles se levantarem.

Sentei-me e com prazer reabri todos os meus pertences. Era impressionante como ela me entendia. Tudo tinha seu lugar pré-definido e ela me aceitava assim, acho que até preferia essa organização. Comecei a pensar como demorei tanto tempo para encontrar uma mesa como ela. Se a tivesse por mais tempo, não teria demorado dois anos para ser aprovado no vestibular. Eu precisava dessa mesa em tempo integral e somente para mim. Não queria dividi-la com mais ninguém. Ela seria minha, mas como?

Pensei em algumas maneiras de concretizar esse sonho. Poderia morar na Biblioteca. O ambiente até me era agradável, mas minha mãe sentiria minha falta dentre alguns dias. Talvez tentar reservá-la, fazer amizade com algum funcionário e suborná-lo para tal fim, mas não tinha dinheiro, ou influência ou carisma para essa tarefa. O jeito era continuar nessa relação perigosa e arriscada. Todos os dias uma disputa, todos os dias a conquista. Quem sabe não é essa a graça que mantêm tudo nessa vida interessante.

All Things Must Pass

Você acha que tudo está perdido quando olha para trás e não vê mais sentido em nada pelo que passou, não se tem certeza que vale a pena enfrentar tudo aquilo. É uma posição difícil de se conviver, pois uma vida de esforços foi desperdiçada e ninguém fica confortável quando se encontra na perspectiva de um fracassado. O primeiro passo é tentar se convencer de que não tem nada errado, você é que está cansado, mas nada como o tempo para recuperar todas as energias. Com o passar do tempo e a ida não só da energia, mas como da paciência, você só pode rezar para que tudo mude antes que o fim seja eminente. Mas uma vez no fim, nem a esperança pode se manter viva. E chega o pior dos estágios, aquele que fingimos estar preparados para aceitar, mas você e a torcida do flamengo sabiam que era pura enganação. Então tem o alívio, a sensação de resolução que sempre vem quando enfrentamos de frente nossos problemas e pensamos: ‘acho que realmente estava preparado para aceitar’. Calma, isso dura somente até o surgimento do vazio, uma solidão estranha, uma falta de rumo que, como uma crise de abstinência, te obriga a voltar para o passado e para os velhos hábitos. Alguns conseguem ser fortes o bastante para enfrentar esse período. E esses, quando olham para trás, vão finalmente entender o sentido de valer a pena. Acredite, vale a pena passar por isso.

Don’t Let Me Down

Não costumo acreditar em tudo que me dizem. Aprendi com o tempo e com algumas grandes desilusões que realmente não se pode confiar em todos, que o mundo não é repleto de pessoas boas e que nem sempre aparecerá alguém para me ajudar.


Percebo-me às vezes sozinho no meu quarto, sentado, pensando. Pensando em tudo o que já passei. Conheci tantas pessoas memoráveis por esses poucos anos de existência, mas algumas, mesmo não tão memoráveis quanto outras, tiveram seus propósitos na minha vida e me ensinaram lições valiosas para quem eu serei no futuro, para quem eu entregarei meu coração, mais uma vez, dessa vez por inteiro. Não sei por que, com o passar dos anos, uma barreira foi surgindo, crescendo a perder de vista; e cada vez mais espessa, criava pequenas armadilhas, testes mentais surgiam para afastar qualquer um que pudesse querer conquistá-la. Mas nesse processo que parecia ser o mais viável no momento, procurar proteção contra os males que assolavam o lado de fora, meu lado de dentro foi se fechando, se perdendo dentro de um universo particular que Marisa Monte não conseguiria lidar. Medos, traumas, pensamentos e desejos se multiplicaram e o que seria normal no mundo de fora, dentro tomava proporções inimagináveis, comandavam o meu ser e me guiavam, mesmo quando queria andar por conta própria. Mas dessa forma, ninguém consegue ficar por muito tempo.

Então mudei. Mudei tentando alcançar o melhor. Ser um ser humano melhor. Comecei a acreditar mais nas outras pessoas, a dar créditos, mesmo que aos poucos, para quem se mostrasse ser merecedor de uma ação da minha confiança. Com alguns, a bolsa foi impiedosa. Não agüentaram a responsabilidade e desistiram. Com outros, ainda bem que há outros. Com esses a bolsa foi generosa, suas ações triplicavam a cada dia que passava; a cada madrugada dividida; a cada segredo conquistado; a cada palavra amiga. Esses, poucos, souberam aproveitar, mesmo que sem querer ou sem saber, as pequenas brechas abertas por um coração perdido, sedento por atenção. Tornaram-se essenciais e me mostraram que não é preciso confiar nas pessoas, não é preciso criar testes para saber quais serão os merecedores de tal honra, eles se revelam da maneira mais básica, pura e fantástica que pode existir, simplesmente sendo quem eles realmente são. Aqueles por quem há tanto tempo esperávamos, por quem há tanto tempo precisávamos.

Let it be

‘Eu não sei’

Essa é a frase que eu mais tenho repetido ultimamente. Foram tantas coisas novas, tantas novas pessoas, tantos acontecimentos surpreendentes que a vida parece estar mudando constantemente, criando novos caminhos nunca antes pensados, revelando destinos nunca antes lidos. No começo é estranho. Como lidar com uma total mudança de planos? Você passa uma vida inteira idealizando um futuro, imaginando cada peça que o formará, cada ação que você tomará, para num instante, no mais desapercebido instante, a roda viva girar e te jogar num mundo novo de possibilidades. Você não sabe o que fazer, o que falar, em qual momento atacar. Você fica perdido, sem saber por onde começar para se encontrar nessa terra estranha. Durante essa transformação, o medo de ter que lidar com essa nova pessoa que está sendo moldada surge. Ficar sem chão, sem a estabilidade que o comodismo nos proporciona, simplesmente apavora até mesmo o ser mais destemido e determinado. Mas no final, é bom. É muito bom. É tão bom que te faz respirar mais fundo, como ao sair de uma montanha-russa. Você não é mais o mesmo. Todas aquelas sensações que te amedrontavam e o fizeram duvidar de si mesmo, simplesmente se mostram pequenas perto da satisfação de se aproveitar cada momento durante o trajeto, e o orgulho de se ter conseguido enfrentar tudo aquilo acaba por te acomodar com o seu novo ‘eu’, fazendo-o desejar ficar estável, não querendo mudar de novo. Infelizmente, não funciona dessa forma. Mudanças inevitavelmente acontecem. Muitas passam desapercebidas, outras requerem tamanha força de vontade que nos arrebatam, tomam todo o nosso ser e precisam de algum tempo para fazer parte do cotidiano. Eu queria poder saber responder a todas as mudanças que ocorreram na minha vida. Queria poder ter explicações para o que mudou, para o que eu agora espero, para como resolver ou contornar as complicações que surgiram. Mas eu não sei. Não sei agora? Não sei ainda? Talvez um dia eu saiba. O que eu sei é que mudanças virão, muitas para o meu próprio bem. Será complicado, muitas vezes difícil, mas também, o que você poderia esperar de uma coisa que é estranha, amedronta, mas satisfaz?!

Help!

A psicologia tem mesmo muito a nos ensinar. Quem a toma como mera ciência que estuda o comportamento dos problemáticos comete um dos piores erros de pré-conceito que um ser humano poderia cometer. Aquele de se abster de ser um problemático. Sim, somos todos uma grande massa de pessoas traumatizadas e marcadas por acontecimentos passados que reverberam suas consequencias nas nossas ações futuras. Depois de milhões de anos de evolução, nos tornamos os seres mais racionais dentre todas as espécies, mas estaríamos nós preparados naquele passado longínquo para tamanha racionalidade? Toda a complexidade que os atos de pensar, refletir, analisar e julgar possuem? Pensando, refletindo, analisando e julgando melhor parece que não. Estamos cada vez mais à beira de um abismo, sem saber como escapar de um destino insólito e determinado mais cedo a cada geração que surge. Nos vemos perdidos, mergulhados num mar de stress, ansiedade, nervosismo e TOCs que fariam qualquer psicólogo perder o chão. É impressionante como conseguimos levantar todos os dias e ainda termos forças para estudar ou trabalhar ao levar em consideração o amontoado de problemas que circulam em nossas mentes. É impressionante, mas totalmente compreensível, uma vez que problemas são a mola propulsora das nossas vidas, resolvê-los é com certeza o passatempo preferido da nossa espécie. Sem eles, viveríamos uma situação bem pior, o tédio total. Sem eles, não teríamos a essencial válvula de escape para exprimir todas as nossas problemáticas e reclamarmos aos psicólogos de que a vida não é fácil não. Sem eles, seriamos uma massa apática e sem objetivos, vagando sem saber o que buscar. Por isso, nunca reclame por ter problemas demais. Já viu alguém reclamar por ter um video-game novo com jogos a mais?

E lembre-se : de perto ninguém é normal!