Prazer, Heitor.

Se eu tivesse mais tempo, eu faria tudo de novo. Pelo menos é assim que tenho pensado em tempos de projeto final. Não cursei todas as matérias que queria, não li todos os textos de todas as aulas e, com certeza, não aproveitei tudo o que a Universidade poderia me oferecer. Mas eu to saindo feliz.

Quando cheguei, não sabia onde estava. Sabia apenas que queria ser jornalista, o novo William Bonner, como dizia minha mãe quando me vendia para as amigas. Desde o ensino médio, essa era a minha certeza. Queria viver para a escrita e, se desse, viver dela.

A fascinação pela UnB aumentava a cada aula, mas eu continuava perdido. Afinal, o jornalismo que sempre quis não me satisfazia. Procurar pauta e apurar notícia me deixavam morto de preguiça. Não aceitava perder o interesse por algo que tanto tinha me motivado.

No segundo semestre, descobri a Doisnovemeia. Não sabia o porquê, mas precisava entrar. Não passei na primeira, nem na segunda tentativa, mas em todas elas, a vontade de fazer parte daquele mundo aumentava. Entrei de terceira e foi no tempo certo. No quarto semestre, uma dúvida apareceu: era eu publicitário?

A cada job, meu interesse pela área aumentava. A rotina me fascinava e a vontade de pesquisar e aprender só crescia. A redação publicitária tinha tudo o que a jornalística não tinha. O tempo foi passando e eu, cada vez mais, era publicitário. O jornalismo não tinha morrido, estava apenas adormecido. A dúvida persistiu e, por isso, nunca mudei de habilitação. Hoje, sou o jornalista mais publicitário que a FAC já viu.

Depois de dois anos e quatro meses, estou saindo da Doisnovemeia. Entrei redator, virei diretor de criação e saio como vice-presidente. O aprendizado que cada uma dessas funções me proporcionou é incalculável e não consigo me ver saindo da Universidade sem ter tido cada segundo dessa experiência. Aprendi a liderar, a gerir uma empresa, a pensar soluções criativas para qualquer problema. Aprendi a me virar, a correr atrás do que acredito, a lutar pelo que eu quero. E, pelo visto, terei muitas batalhas pela frente. Eu quero o mundo e não descanso enquanto não o tiver. Quero abrir uma agência ou trabalhar em uma. Quero morar em São Paulo ou pousar em Londres. Quero muitas coisas, tantas que eu me perco. Mas quem não é assim?

 

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Forró no pé do Cerrado

Dois pra lá, dois pra cá. Pronto, você já está preparado para dançar juntinho ao som da sanfona, da zabumba e do triângulo. O forró tem ganhado cada vez mais adeptos na cidade e as festas que levam esse nome não param de surgir. Atraídos pelo som animado e pelos passos decorados, os forrozeiros encontram agora em Brasília diversas opções para curtir um dos ritmos mais famosos do Brasil.

Com origens nordestinas, o forró também é conhecido como arrasta-pé, bate-chinela, fobó e forrobodó. A esse último, atribui-se a origem do próprio nome forró. Se você já ouviu a versão de que forró é uma aportuguesada de “for all”, não passe a informação adiante. O termo vem mesmo de forrobodó e se firmou desde o final do século XIX, significando divertimento, festas animadas. No começo, ele designava apenas uma dança, mas com o passar do tempo, virou sinônimo de ritmo musical e hoje abarca a quadrilha, o xaxado e o baião. Este, em especial, tem como pai o grande Luiz Gonzaga, um dos principais responsáveis pela popularização do ritmo e detentor do titulo de Rei do Baião.

Com o crescimento de outras vertentes musicais, como o rock e a bossa nova, o forró acabou sendo marginalizado, tomado como música para gente pobre e desfavorecida. Só nos anos 90, com o surgimento do chamado forró universitário, em São Paulo, que o ritmo voltou, adaptado à vida nas grandes cidades. Junto com ele, novas vertentes apareceram, como o forró pé-de-serra e o eletrônico. Este adicionou o baixo, a guitarra, a bateria e o teclado ao som do forró, sendo criticado por muitos por ter mudado a essência do triângulo, da zabumba e da sanfona.

Essa crítica acabou por incentivar uma volta às raízes do forró e a valorização do ritmo que havia sido menosprezado. Os jovens abastados que antes viam o forró como algo sem valor, hoje encaram como uma importante produção cultural do nosso país e buscam avidamente conhecer o passado do ritmo. Alexandre Bastos, 21, afirma que muito dessa revisitação se dá pela pluralidade do nosso país, sempre há novas produções culturais para se descobrir e se utilizar como referencia. Quando perguntado se ele também se enquadrava nessa tendência, ele foi enfático. “Claro. Eu mesmo tenho Zé Kéti [tradicional sambista carioca, homenageado pelo prêmio TIM em 2007] aqui no meu computador. Já vi um pessoal da UnB que revisita as raízes da música brasileira assim como os Novos Baianos fizeram. A música brasileira ganha um patamar até erudito, e o forró segue essa linha”.

O ritmo tomou o Brasil com o grande êxodo dos nordestinos para cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A capital, em especial, se tornou um reduto dos nordestinos vindos para a realização dos planos de Lúcio Costa e do modernismo de Oscar Niemayer. Antes famosa pelo sucesso de suas bandas de rock, como Legião Urbana e Capital Inicial, Brasília hoje começa a se tornar relevante no cenário do forró e atrai cada vez mais pessoas para a dança.

Só durante a semana, existem diversas opções na cidade, incluindo clubes que só tocam o ritmo. Nas festas, a partir dos 18 anos, não tem idade máxima. Não é raro encontrar casais comemorando 30 anos de casamento e 30 anos de forró. Esse é o caso de Carlos Roberto, 49, que encontrou em um baile em Natal sua esposa e até hoje, dançam o forró para relembrar os velhos tempos. “Se não fosse o forró, não estaríamos juntos. Se pudesse, pedia pro Luiz Gonzaga ser nosso padrinho. Seria perfeito”, conta.

Para os mais jovens, as festas são ótimas opções para sair e encontrar os amigos. Alessandra Cavendish, 21, já foi em várias e afirma a importância do forró para a cidade. “Na primeira vez que eu fui deu pra ver que tem público. Quem não curte as outras baladas agora tem uma opção”.

*Matéria publicada na revista Plano Brasília

Empty Streets

E de repente, vazio. Nada, não vejo nada. Não penso em nada. Branco, cinza, preto. Não existem cores, matiz, valor. Só um. Uma idéia, uma voz, um sopro. Único. Eu não penso, não existo, sobrevivo. Onde vivo? Por que vivo? Ando sem destino. Não procuro, espero. Passa, o tempo. Nada muda. Eu não mudo. Eu fico, resisto, ignoro, não me importo. O que falas? O que pensas? Por que? Falsidade, inocência? O indizível em uma frase. Olá, como vai? Não se importam. Eu me importo. De repente, eu me importo, me sufoco. Como sair daqui? Para onde ir? Há saída? Se houver, alguém me ensina?

Fragments – Les bruissements du monde from Jean-Sebastien Monzani on Vimeo.

I’m done

Eu quero ir embora. Largar tudo sem nem me despedir. Esquecer de tudo, de todos e ficar quietinho, no meu canto. Uma folga dos problemas que eu tenho, que eu invento e que não descansam no sétimo dia. Eu estou cansado, exausto. Procuro soluções, tomo decisões e ainda não resolvi o principal problema: eu mesmo.

Às vezes

Ás vezes, eu sinto falta, mas só às vezes. Não é sempre não, não vá se acostumando. Às vezes, eu me pego lembrando de momentos bestas, sabe? Momentos que eu tenho certeza que você não lembra, mas que ficam aqui, martelando e criando buracos que eu cismo em retocar.

Às vezes, eu tenho saudades. Penso na felicidade do passado, que beleza é o passado. Nesses momentos, tudo o que queremos é voltar para esse tempo luminoso. Não tínhamos problemas, os sorrisos eram mais brancos, as aflições eram mais amenas e eu dormia melhor.

Às vezes, tenho medo. Penso nessa felicidade hoje em dia, como seria. Será que se perdeu? Será que outra melhor aparecerá? O que eu faço, eu posso fazer, existe algo que eu possa fazer? Diz, me diz, eu faço.

É, às vezes, me desespero. Mas logo passa.

Você sabe?

Você me olha com essa cara de quem não sabe de nada. Para. Eu sei que você não sabe. Você não sabe, você não tem ideia do que eu tenho passado por sua causa. Viro noite, esquento a cama e o seu rosto sempre ali.

Estou cansado e todos percebem. Sorrio, disfarço com uma dor no ciático. Você percebe? Nem se mexe. Por que? Eu me remoo por dentro, pergunto, anseio. Já sei, vou ler alguma coisa. Quantas páginas faltam? E essa música que não sai da minha cabeça. Já deu Nando Reis. O que eu te dei foi muito pouco ou quase nada. E o que eu deixei, eu não deixei. Você já tinha me deixado.

Eu me deito, vou pensar em outra coisa. Branco, tudo branco, calma, você no branco, seu rosto iluminado, branco. Yoga? Se com a mente cheia você não sai, imagina o seu corpo junto ao meu, nós dois deitados. O seu cheiro se mistura com o meu, somos um só. Eu estou só. E você não sabe de nada.

Infinitos

Não é só Marisa Monte que tem um infinito particular. Basta conhecer alguém além da função fática que logo se percebe a complexidade que cada um carrega. Pensamentos, opiniões, medos, aflições, amores, mágoas, cicatrizes mal curadas. De tudo um pouco, você pode encontrar. Ele nos representa, esse infinito finito que mal cabe em nossa memória. O particular dura pouco tempo. Sempre dividimos, misturamos, nos reinventamos com outras pessoas, com outras coisas, com o mundo a nossa volta.

O homem nasceu para interagir. Pense nos cinco sentidos. Sua principal função é libertar o homem de sua prisão. É conectá-lo com o universo de fora, com o infinito comum. Essa ponte, quando bem feita, causa marcas que custam a sair. A união entre infinitos constrói a nossa história. Vamos sendo moldados, esculpidos. E uma vez seca, não tem mais jeito, a obra tá pronta.

Cuidado com as conexões que você faz. Marcadores somáticos são perigosos. O aroma de uma flor pode lembrar aquele motel barato para sempre. O som ao abrir uma latinha pode significar anos de terapia para superar o terror de ser molhado novamente. Talvez seja exagero. Mas o ID é a delícia irracional do exagero. O superego é conciso, objetivo e muitas vezes enganado. O instinto é o que nós temos de mais verdadeiro. Mesmo quando impulsionados por neurônios espelhos nos vemos imitando comportamentos, é verdadeiro. A cópia é original. Tudo que é vivido e experimentado é original, pelo menos para o nosso cérebro.

Ainda bem que antes do finito vem um in. Só assim para caber uma vida de conexões.

Reflexões pós A lógica do consumo.