Archive for the ‘ Palavras ao vento ’ Category

I’m done

Eu quero ir embora. Largar tudo sem nem me despedir. Esquecer de tudo, de todos e ficar quietinho, no meu canto. Uma folga dos problemas que eu tenho, que eu invento e que não descansam no sétimo dia. Eu estou cansado, exausto. Procuro soluções, tomo decisões e ainda não resolvi o principal problema: eu mesmo.

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Às vezes

Ás vezes, eu sinto falta, mas só às vezes. Não é sempre não, não vá se acostumando. Às vezes, eu me pego lembrando de momentos bestas, sabe? Momentos que eu tenho certeza que você não lembra, mas que ficam aqui, martelando e criando buracos que eu cismo em retocar.

Às vezes, eu tenho saudades. Penso na felicidade do passado, que beleza é o passado. Nesses momentos, tudo o que queremos é voltar para esse tempo luminoso. Não tínhamos problemas, os sorrisos eram mais brancos, as aflições eram mais amenas e eu dormia melhor.

Às vezes, tenho medo. Penso nessa felicidade hoje em dia, como seria. Será que se perdeu? Será que outra melhor aparecerá? O que eu faço, eu posso fazer, existe algo que eu possa fazer? Diz, me diz, eu faço.

É, às vezes, me desespero. Mas logo passa.

Você sabe?

Você me olha com essa cara de quem não sabe de nada. Para. Eu sei que você não sabe. Você não sabe, você não tem ideia do que eu tenho passado por sua causa. Viro noite, esquento a cama e o seu rosto sempre ali.

Estou cansado e todos percebem. Sorrio, disfarço com uma dor no ciático. Você percebe? Nem se mexe. Por que? Eu me remoo por dentro, pergunto, anseio. Já sei, vou ler alguma coisa. Quantas páginas faltam? E essa música que não sai da minha cabeça. Já deu Nando Reis. O que eu te dei foi muito pouco ou quase nada. E o que eu deixei, eu não deixei. Você já tinha me deixado.

Eu me deito, vou pensar em outra coisa. Branco, tudo branco, calma, você no branco, seu rosto iluminado, branco. Yoga? Se com a mente cheia você não sai, imagina o seu corpo junto ao meu, nós dois deitados. O seu cheiro se mistura com o meu, somos um só. Eu estou só. E você não sabe de nada.

Infinitos

Não é só Marisa Monte que tem um infinito particular. Basta conhecer alguém além da função fática que logo se percebe a complexidade que cada um carrega. Pensamentos, opiniões, medos, aflições, amores, mágoas, cicatrizes mal curadas. De tudo um pouco, você pode encontrar. Ele nos representa, esse infinito finito que mal cabe em nossa memória. O particular dura pouco tempo. Sempre dividimos, misturamos, nos reinventamos com outras pessoas, com outras coisas, com o mundo a nossa volta.

O homem nasceu para interagir. Pense nos cinco sentidos. Sua principal função é libertar o homem de sua prisão. É conectá-lo com o universo de fora, com o infinito comum. Essa ponte, quando bem feita, causa marcas que custam a sair. A união entre infinitos constrói a nossa história. Vamos sendo moldados, esculpidos. E uma vez seca, não tem mais jeito, a obra tá pronta.

Cuidado com as conexões que você faz. Marcadores somáticos são perigosos. O aroma de uma flor pode lembrar aquele motel barato para sempre. O som ao abrir uma latinha pode significar anos de terapia para superar o terror de ser molhado novamente. Talvez seja exagero. Mas o ID é a delícia irracional do exagero. O superego é conciso, objetivo e muitas vezes enganado. O instinto é o que nós temos de mais verdadeiro. Mesmo quando impulsionados por neurônios espelhos nos vemos imitando comportamentos, é verdadeiro. A cópia é original. Tudo que é vivido e experimentado é original, pelo menos para o nosso cérebro.

Ainda bem que antes do finito vem um in. Só assim para caber uma vida de conexões.

Reflexões pós A lógica do consumo.

Vermelho

Ela levantou e pensou: quanta dor será que uma pessoa aguenta? Estava perto de explodir. Seu coração apertava. Não de angústia. Não sabia nem o que era isso. Poucas vezes ficou aflita com alguma coisa. Antes que desse tempo, ela levantava e fazia algo. Chegou perto da janela e avistou lá fora. Um engarrafamento cruzava toda a pista. Os prédios ao redor quase negavam a ela o direito de ver o céu. Na pequena fresta que encontrou, percebeu que estava nublado. Aquele não era um bom dia. Não tinha sido desde a primeira refeição: sopa de abóbora. Quem gosta de abóboras nesses dias? Abóbora nem deveria ser comida. Sua sina era virar lampião de Halloween, isso sim. Com as vistas embaçadas de olhar para o céu, procurou abrigo nas pequenas formigas que caminhavam lá embaixo. Pelo menos era assim que as pessoas ficavam do décimo sétimo andar. Gostava de altura, sempre gostou. Adorava quando se via desperta com o coração na boca depois de ter caído de um precipício. Nunca escalou na vida, talvez seja esse o seu maior arrependimento. E claro, ter pintado o cabelo de vermelho na década de 60. Os tempos eram outros, ela sempre dizia. Mas no fundo, lembrava com carinho dessa época. Rebeldes sem causa, eles diziam. Mal sabiam. Em um movimento brusco, abriu a janela. Sentiu o vento no rosto. Arrepiou-se. Não de medo, não era dada a sentimento, oras. Era frio mesmo. Pensou mais um pouco. Não tinha o que pensar. Deu-se direito a mais um pensamento: se ainda tivesse cabelo, pintava de vermelho.

Mexa-se

Música é para mexer. Seja o corpo, seja a alma. Tem que mexer. Quando mexe, é como um beliscão. Você está vivo. Cada centímetro da sua pele sente a vibração. É difícil não vibrar junto.

Não sei porque, mas essa música mexe e muito comigo. Queria ter 1/10 da sensibilidade desses caras só para mexer com o sentimento das pessoas dessa forma.

Rotina

Vem e vai.
Entra e sai.
Tudo se inspira.
Nada expira.
Vê se não pira.
Nesse vem e vai.