Sorrir por sorrir

O sorriso esconde a ansiedade que me corroi por dentro. E ele não é apenas amarelo. É vermelho cólera, azul arrependimento, verde cadê a esperança, roxo estou tão xoxo. Uma mistura de sentimentos e todos cobertos por um sorriso. Ninguém percebe, ninguém se atenta. Vai ver estão todos ocupados compondo seus próprios sorrisos.

Bons tempos aqueles em que um sorriso era só um sorriso. Conquistar uma casa na árvore, construir um castelo de areia, mergulhar de ponta na piscina. Mas espera, as coisas não eram tão simples assim. Antes de conseguir chegar no topo, reclamei muito daquela maldita árvore. Até finalizar o castelo, frustração era a única convidada. Dar de ponta na piscina gerava os mesmos frios na barriga que enfrento hoje em dia.

As coisas nunca são fáceis, elas só mudam de proporção. O que antes era difícil, hoje vira rotina. Mas a vida não acaba. Novos desafios surgem e, principalmente, novos problemas. Enfrentá-los parece ser o único caminho, não tem para onde fugir. O jeito é botar um sorriso no rosto e esperar que todos pensem que ele é só um sorriso e não um mar de confusão.

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A culpa não é nossa.

A culpa não é nossa. A gente nunca erra. Se aconteceu, tem que ter uma explicação. Algo maior do que nós. Algum motivo, alguma força superior, algum destino. O que será que isso deve significar? Não passar no vestibular é uma chance dada pelos Deuses para repensarmos nossa escolha. Se a colheita não vingou a culpa é da falta de sacrifícios. A promoção não veio porque você olhou para a mulher do seu chefe.

Justificativas é que não faltam. Engana-se quem acredita que no passado elas eram mais exacerbadas. É verdade que fazer sacrifícios e fazer tudo o que os oráculos pediam pode parecer insano se visto pelos olhos da modernidade. Antes, se algo dava errado, a culpa era da ira dos Deuses. Eles não fizeram o seu papel, não nos inspiraram o suficiente. Deveríamos nos prostar e implorar por suas bênçãos.

 Hoje, a coisa não está muito diferente. A ciência evoluiu, as teorias se multiplicaram, mas nada explica a necessidade humana de encontrar sempre um bode expiatório. Somos incapazes de assumir nossos defeitos. Vivemos na era da puta falta de sacanagem. Talvez seja uma característica da evolução. Imagina se todo dia ao olharmos no espelho, víssemos quem realmente somos? Alguém conseguiria suportar tamanha realidade? Nos frágeis momentos em que saímos das fantasias em que vivemos, ficamos sem chão, nos sentimos tão fracos, percebemos que somos como os que apontamos no meio da rua. A culpa não é nossa, somos apenas humanos.

Brasão moderno

Base. Encheção. Tudo. Discussão. Carinho.  Família. Cada um pode chamar de um jeito, mas todos temos uma. Seja formada por laços sanguíneos ou de carinho, vivemos em bando, procuramos uns aos outros, apoioamo-nos uns nos outros.

Mesmo com todos esses lugares comuns, família era algo datado. Uma instituição falida e sem propósito no mundo moderno. Uma época em que o número de divórcios quase superava o de casamentos. É, família está com os dias contados.

Pelo menos estava. Nas ruas, a cada parada em um semáforo, provas e mais provas de que o discurso pós-moderno está errado aparecem nas traseiras dos carros. Até periquito, cachorro e papagaio são estampados como símbolos de uma família feliz, unida e orgulhosa de si mesma.

Se atualmente as famílias não possuem mais seus orgulhosos escudos, dizer para o mundo que se tem dois filhos e uma esposa é a forma encontrada para se auto-afirmar o sobrenome. As famílias voltaram, e com força total. Cool é quem tem mais filho, pois isso significa mais bonequinhos para ostentar.

Hoje, uma decisão inédita deu aos homossexuais o direito de se casarem legalmente. O que significa mais adesivos nos carros. Quer orgulho mais defendido (com razão) do que o dos gays?

Pode ser uma onda, modinha passageira, quem sabe na próxima estação, as famílias voltem para o armário. Mas por enquanto, aproveite essa fase. Curta os seus, desfrute cada momento, não perca tempo. Afinal, você já abraçou um parente hoje?

Osama in a box

Osama morreu. Invadiram a mansão do cara e o mataram a queima roupa. Dizem que não sobrou nada. Virou comida de tubarão, sereia, Iemanjá. Mas diferente do que todos pensam, ele não está no fundo do mar. Ele vive em uma caixa. Ou morre dentro dela. Ninguém sabe. Se ele morreu, ninguém tem provas.

O que permanece é o “se”. Essa partícula apassivadora, que também indetermina o sujeito, é quem tem mantido o sujeito mais indeterminado vivo. Sem provas, sem bisbilhotar dentro da caixa, Osama ainda respira. Assim como o gato de Schrödinger. Vivo e morto ao mesmo tempo.

Somente quando a dúvida se vai, quando abrimos a caixa e checamos se o coração do gato ainda pulsa, é que o matamos. Até lá, Osama e o gato estão mais vivos do que todos nós. Eles estão nas nossas lembranças, nas nossas dúvidas, nas nossas inseguranças.

E como sabemos, todo mundo tem um quê de São Tomé. A gente precisa ver, tocar, ouvir e, às vezes, só com tudo autenticado em cartório em três vias para poder começar a acreditar.

Até que a caixa seja aberta, continuem as buscas, soltem os cães farejadores. Osama vive dentro de uma caixa. E isso ninguém pode negar.

Olhe para o lado.

[Discurso Orador – Colação de Grau 2/2010]

O meu discurso ideal não começaria assim. Ele não seria marcado por tristeza ou comoção. Hoje é um dia de festa, mesmo que daquelas saudosas. O meu discurso começaria diferente, se não fosse a chuva de ontem. A UnB que tivemos por 4 anos ruía na nossa frente. Espaços alagados, paredes levadas, imagens de arrepiar. Mas mesmo com todos os danos, a UnB não para. Porque não são os aparelhos, as paredes ou os laboratórios que nos movem. É o amor pelo conhecimento, a vontade de crescer e a dedicação de cada aluno, cada professor e cada funcionário. O meu discurso ideal não começaria assim, mas ele precisa começar assim. Antes de prosseguir, eu queria pedir uma salva de palmas à universidade que nós fizemos e que nos fez chegar até aqui.

Depois disso, eu queria pedir algo pra vocês. Olhe para o seu lado. É, só olhe para o lado. O que você vê? A gente passa tanto tempo olhando para trás, lembrando do passado, ou olhando para frente, tentando adivinhar o futuro. Mas olhe para o seu lado só pra variar. Me diz, você consegue ver? Vê os sonhos, os desejos? Os problemas, as vitórias? As qualidades e os defeitos? Você consegue ver além do que se vê? Foi com essas pessoas que passamos quatro anos das nossas vidas. Mudamos, crescemos, nos conhecemos. Mas pra que? Qual o propósito de passar por tudo isso? Estudar, virar noite, fazer fichamento, pintar pontinhos e pintinhos, decupar matéria, procurar cenário. Pra que serve apurar notícia, escrever roteiro, aprovar uma peça? Nosso diploma não garante emprego nenhum. Pra que? Para aprender a olhar para o lado. Dos meus quatro anos de UnB, essa foi a maior lição que eu aprendi.

Conhecer pessoas maravilhosas, mergulhar e descobrir cada pedaço delas. Dividir momentos e encontrar denominadores comuns. Rir, gargalhar, prender o riso e gargalhar de novo. Chorar, gritar, pedir perdão e sair correndo. Abraçar, consolar, apoiar em qualquer situação. Entender que estar na Universidade é mais que conviver com pessoas, mas vive-las, intensamente. Compreender o outro vai além de gostar ou concordar, mas sim aceitar. Nesses quatro anos, nos aceitamos, nos vivemos e tenho certeza, não nos arrependemos de nada.

Eu podia dizer que nunca vamos nos esquecer, que nossa amizade é para sempre ou que essa foi a melhor época das nossas vidas. Mas olhe para o lado. Será que precisa dizer? Em cada um, você encontra uma história, uma trombada no corredor, uma aula na ala sul, uma ida ao Ceubinho.

Cada um aqui viveu e experimentou uma UnB diferente. Essa é a beleza da nossa Universidade. A gente se descobre nesses corredores, se vê independente, lutando para ser um profissional enquanto ainda aprendemos a sair das asas dos nossos pais. A UnB é realidade. Quem diz que aqui a gente só vê teoria esquece que ela é prática em cada conversa com um professor, em cada desafio superado, em cada projeto realizado. Perdemos as contas de quantos seminários, trabalhos e até provas realizamos. Mas de todos eles, o que fica é a experiência de ter dividido o mesmo espaço com todas essas pessoas e, claro, com esses grandes mestres. Respeitados não só pelo que já fizeram em suas carreiras, mas pelo que nos fazem fazer com as nossas. Vocês foram inspiração em diversos momentos. Agora, é hora de agradecer por tudo. Com vocês, sentimos frustração, satisfação, mas acima de tudo, orgulho. Sentimento que expressa o dever cumprido. Não com o cliente, não com o produto, mas com nós mesmos. Estamos todos aqui para o nosso crescimento. Trabalhamos, estudamos e aprendemos para voarmos mais alto. E com a ajuda de um amigo é muito mais fácil.

Com certeza, vocês devem lembrar de momentos marcantes, momentos que nós e os professores jamais esqueceremos. Essa é a beleza da vida. É viver para recordar. É viver para criar novas histórias. Algo extremamente importante para nós, comunicadores. Hoje, chega ao fim uma das histórias mais bonitas que vivemos. A melhor época das nossas vidas, alguns insistem em dizer. É hora de olhar para a frente, mirar num horizonte que parece longe, mas que chega rápido, como num piscar de olhos.

Ontem mesmo estávamos entrando nesse campus pela primeira vez. Hoje saímos, com uma única preocupação. Olhar mais pro lado. Afinal, olha só o que a gente podia ter perdido se não tivesse feito isso. Muito obrigado.

You’ve got the love

Vamos fugir? Pra onde? Vamos fugir. Não precisa de porto, não pensa na chegada. Mas como não pensar na chegada? Vamos para onde? Por que se focar no onde quando o quem é tão mais importante? Vamos fugir. Nós dois. Juntos. Se eu aceitar, como faríamos? De novo, meu bem, pense no quem. Vamos fugir. Jogar as mãos para o ar. Quando o vento chega no rosto, a pele arrepia. Eu quero isso. Eu quero você. Eu também quero você. Vamos fugir. Deixar tudo para trás. Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer. Tudo bem. Vamos. Eu te espero do outro lado. Como da primeira vez? Como da primeira vez. Posso confiar em você? Meu bem, você já confiou. Eu te amo. Eu sei.

Vício em 140 caracteres

Eu confesso, estou viciado. A droga é licita e cada vez alcança mais adeptos. Vi em uma dessas pesquisas que o número de usuários cresceu mais do que 100%.  É uma verdadeira epidemia. Nenhuma política pública pode conter essa expansão. O jeito é se adaptar a essa nova realidade. Uma vida com o Twitter.

Não sei como todo mundo se comunicava antes. Como eu não sabia o que as pessoas estavam fazendo? Como eu podia viver sem descobrir o que estava acontecendo? Será que as pessoas adivinhavam ou viviam numa completa cegueira? Não importa, esse tempo ficou no passado. Agora, é impossível imaginar uma vida sem hashtag, RTs e DMs.

Outro dia, quase passei mal de rir com o #dilmafactsbyfolha. Tinha gente acusando a candidata de ter dopado o Fenômeno na Copa de 98. Ou anunciando que antes dela mergulhar no mar morto, ele nem estava doente. Alguns até diziam que a seca do nordeste era fruto de um desentendimento dela com São Pedro. A veracidade das notícias não foi comprovada, mas o objetivo da ação foi atingido.

Nunca vi uma manifestação tão genial. Em poucos minutos, ninguém falava de outra coisa. No dia seguinte, era manchete de todos os jornais. A população tinha voz e queria ser ouvida. Não importa se do outro lado estava uma das maiores empresas jornalísticas do Brasil. O monopólio da informação foi invadido por milhares de brasileiros que em 140 caracteres dizem tudo o que pensam. E como a gente gosta de dizer o que pensa. Deve ser por isso que existem tantos viciados como eu por ai.